
A participação feminina na construção civil tem crescido nos últimos anos, impulsionada pela expansão de obras de infraestrutura e pelo aumento das contratações formais. Apesar disso, as mulheres ainda ocupam uma fatia pequena dos postos de trabalho no setor, sobretudo em funções técnicas, operacionais e cargos de liderança.
Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apontam que, entre janeiro e maio de 2023, a construção civil liderou a geração de empregos formais no país, com 148.630 novas vagas. No Nordeste, a Bahia foi o estado com maior saldo de postos de trabalho, registrando 4.418 admissões com carteira assinada, o equivalente a 23,88% do total da região.
Ainda assim, números da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e do próprio Caged mostram que apenas 20,2% das vagas abertas no setor em 2023 foram preenchidas por mulheres. Atualmente, elas representam cerca de 10% da força de trabalho formal da construção civil no Brasil.
Vivências no canteiro
O cenário pode ser observado em obras de grande porte, como a nova Rodoviária de Salvador, no bairro de Águas Claras. Entre os profissionais que atuaram no empreendimento está a operária Mara Cristina, de 43 anos, mãe e avó, que vê na construção civil um espaço de autonomia financeira e realização pessoal.
“Eu ajudei a construir a rodoviária e também construí minha própria casa. Tenho muito orgulho disso”, afirma. Segundo ela, a rotina é marcada por esforço físico e pela necessidade de conciliar o trabalho com as responsabilidades familiares: “Não tem tempo ruim. A gente aprende a dar conta.”
Mara relata que, embora exista respeito por parte de muitos colegas, situações de machismo ainda ocorrem. “Já ouvi piadinhas de chefes, mas eu sempre me imponho. A gente precisa se posicionar”, pontua.
Outra realidade é vivida por Dandara Almeida, de 27 anos, técnica de edificações. Com formação na área e atuação em obras de médio e grande porte, ela percebe maior reconhecimento por parte de engenheiros e gestores, mas enfrenta resistência no dia a dia com parte das equipes operacionais.
“Com os superiores, geralmente há respeito pelo meu conhecimento técnico. Mas, no canteiro, já precisei reafirmar várias vezes minha função, principalmente por ser jovem e mulher”, relata.
Segundo Dandara, situações de desconfiança e comentários inadequados ainda fazem parte da rotina:
“Alguns trabalhadores questionam orientações ou fazem brincadeiras que não fariam com um técnico homem. É preciso manter a postura firme para garantir o respeito.”
Salários e faixa etária da construção civil
Além da expansão no número de vagas, a construção civil também apresenta salário médio de admissão de R$ 2.147,88, acima da média geral da economia, que é de R$ 2.015,58. A maioria das contratações concentra-se em profissionais com ensino médio completo, especialmente entre 18 e 29 anos, faixa etária que inclui muitas mulheres em início de carreira.
Especialistas apontam que o aumento da participação feminina depende de políticas de capacitação, estímulo à contratação e combate à discriminação nos ambientes de trabalho.
A expectativa é que, com o avanço dessas iniciativas e a valorização de trajetórias como as de Mara Cristina e Dandara Almeida, o setor da construção civil evolua não apenas em volume de empregos, mas também em diversidade e equidade de gênero.
