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Livro sobre Jorge Amado será lançado na Academia de Letras da Bahia

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Se a Bahia é reconhecida e querida nacional e internacionalmente, sobretudo de meados do século passado pra cá, deve tudo a Jorge Amado (1912-2001). Muita gente se interessou em conhecer a terra de Gabriela, seu Nacib, Teresa Batista, Vadinho, Dona Flor, Livia, Guma, Tieta, Pedro Bala – e tantos outros personagens que emolduraram a Bahia e nortearam a literatura nacional –, depois de folhear e se encantar com os escritos de Jorge.

Então, para decifrar este universo tão baiano e, ao mesmo tempo, tão brasileiro, o escritor, pesquisador e crítico mineiro Eduardo de Assis Duarte, 74, lança Narrador do Brasil – Jorge Amado leitor de seu tempo e de seu país (Fino Traço), nesta sexta-feira (11), às 17h, na Academia de Letras da Bahia. Esta já é a segunda incursão de Duarte sobre a obra amadiana.

Ele também é autor de Jorge Amado, romance em tempo de utopia (1996), em que focou nos romances ‘proletários’ dos anos 1930 a 1950, do escritor baiano.

Para Eduardo, a produção amadiana se constitui em verdadeiro patrimônio cultural e tem recebido, neste primeiro quarto do século XXI, um grande volume de novas apreciações para além de leituras canonizadas desde o século passado.

Neste novo trabalho, o crítico se dedica à produção de Jorge Amado como um todo e oferece ao leitor uma visão mais ampla, profunda, humana e complexa para a extensa obra do autor de Mar Morto, que já atravessa seis décadas da nossa história.

“Não me debruço sobre o conjunto das publicações, livro por livro. Faço um recorte e teço relações entre O país do carnaval, Jubiabá, Capitães da areia, Gabriela, cravo e canela, Dona Flor e seus dois maridos, Tereza Batista cansada de guerra, Tieta do Agreste, Tenda dos milagres, além de textos mais curtos, como Quincas Berro D’água e O compadre de Ogum. Mas procuro destacar algumas constantes e opções construtivas que atravessam seus escritos”, salienta o autor mineiro.

Diversos Amados

Pesquisador com publicações sobre Machado de Assis, Conceição Evaristo, Itamar Vieira Junior e outros autores modernos e contemporâneos, Duarte parte do pressuposto de que as transformações experimentadas pela vasta obra de Jorge o tornaram, antes de tudo, um leitor de seu tempo e de seu país.

“Jorge Amado é, sem dúvida, um dos grandes responsáveis pela formação de um público leitor para a literatura brasileira, e isto não é pouco. Não é a todo momento que um romancista consegue a proeza de ter milhões de receptores para um único livro, como Capitães da areia, por exemplo. E isto não apenas entre nós, mas também no exterior, já que está traduzido em 49 idiomas e é lido e estudado em inúmeros países, dos Estados Unidos ao Vietnam”, explica Eduardo.

Em Narrador do Brasil, o crítico mineiro quer evidenciar ainda o escritor comunista que, paradoxalmente, defende a liberdade religiosa, o feminismo, sempre atento ao direito ao corpo, e o ‘negritudinista’ que, pela primeira vez na literatura brasileira, coloca o negro como herói.

Eduardo lembra ainda que Jorge é um observador atento de seu tempo e de seu país, como já prescrevera Machado de Assis no século XIX. “Um produtor de ficção cuja percepção evoluiu rumo a um entrelugar privilegiado que lhe permite um olhar plural, múltiplo, atento aos dramas sociais provocados pela opressão do pobre, da mulher, do negro. Um leitor-escritor inconformado com a exploração, o desrespeito, as injustiças”.

A obra explora também os marcadores sociais de diferença – classe, gênero e etnicidade –, e mostra como tais conceitos e suas intersecções estão presentes em todo o trabalho deste autor baiano, que sempre foi um campeão de vendas no Brasil.

“Seus personagens são, antes de tudo, brasileiras e brasileiros, gente que, em sua maioria, tem que dar duro para viver ou, em muitos casos, sobreviver: pobres, habitantes de cortiços, como em Suor; órfãos, como os meninos de Capitães da areia; retirantes, como Gabriela ou os personagens de Seara vermelha; negros vítimas de preconceito, como em Tenda dos milagres e outros escritos. Mas, acima de tudo, gente que luta, resiste e alimenta as utopias que atravessam os romances”, pontua Duarte.

Protagonismo negro

E na contramão de uma visão mais eurocentrada, Jorge sempre elegeu homens e mulheres do povo como heróis, o que talvez explique boa parte de seu sucesso e o torne um eterno clássico nacional.

Mas alguns críticos chegaram a considerá-lo um autor menor. Segundo Eduardo, isto aconteceu porque o escritor baiano ousou escrever para o povo, não para a elite. “Em 1991, quando defendi minha tese, disse que a universidade brasileira em geral só lê aqueles livros que só ela lê, e o que o povo aprecia ela, não toma conhecimento”.

“Nessa linha, muitos críticos, deslumbrados com o que há de mais sofisticado em termos de elaboração literária vinda do hemisfério norte, passaram a acusá-lo de ‘populismo’, ‘pobreza estética’, ‘estereótipos’ e outros ‘defeitos’ próprios a uma produção alheia ao formalismo elitista”, alinhava o autor.

Então, afinal, o que quer Jorge Amado com sua obra? “A meu ver, um país melhor, mais humano, dentro de um mundo sem opressão. Ou seja, utopia pura! Uma sociedade sem exploração econômica e com justiça social; sem opressão de gênero, com direitos iguais e respeito mútuo entre as diferenças; e sem racismo e quaisquer outras formas de discriminação pela cor da pele. Simplesmente um outro país e um outro mundo”, sintetiza Eduardo Duarte.

Lançamento de Narrador do Brasil – Jorge Amado leitor de seu tempo e de seu país / Sexta-feira (11 de abril), 17h / Academia de Letras da Bahia (Av. Joana Angélica, Nazaré)

Narrador do Brasil / Eduardo de Assis Duarte / Editora Fino Traço / 244 páginas / R$ 70